Educação com propósito: foco no ser humano

Muito se fala sobre educação integral e competências da BNCC, mas afinal, como se caracteriza tudo isso na prática? O que significa ter uma educação com foco no aluno? E por que isso deve transformar a sociedade no futuro?

Datado de 1840, o “Conto de Escola”, de Machado de Assis, retratava uma prática curricular que tirava a vontade de um dos personagens em ir à escola. Percebe-se que o menino sofria com um contexto escolar desarticulado de sua vida:

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
– Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo
”.
(ASSIS, Machado, 2007, p. 326: 1839-1908.)

A realidade é que o ser humano é complexo e, para desenvolvê-lo de maneira completa, é necessário incorporar estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes, alinhadas com as competências que ele precisa para enfrentar os desafios do século XXI. E num mundo que cada vez mais abre espaço para cidadãos protagonistas em seus ambientes, não é possível imaginar que o ensino tradicional, com seus modelos criados para atender demandas antigas, dará conta do recado.

A professora universitária Ericka Vitta, mestre em Educação e Tecnologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e em Educação Sóciocomunitária pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), faz uma autocrítica ao fato da escola ter chegado aos dias de hoje sem, de fato, ter conseguido ser atrativa. “O fracasso escolar tem sido debatido não só por educadores, mas por toda sociedade. Não estamos cumprindo nossa função social, em geral a escola se mantém distante da realidade e das necessidades contemporâneas”, avalia ela.

É em torno dessa lacuna que a educação integral vem se intensificando como um novo modo de pensar a aprendizagem, deixando a narrativa machadiana cada vez mais no campo da ficção. Se bem conduzida, poderá ser um passo significativo para aproximar o ensino brasileiro dos padrões mundiais.

Fácil entender o porquê. A concepção de educação integral pressupõe o desenvolvimento do ser humano na diversidade de suas dimensões – intelectual, física, emocional, social e cultural -, considerando as necessidades e potenciais específicos de cada um. Sua aplicação ou não em tempo integral é apenas uma opção, já que o tempo não tem, necessariamente, relação com a qualidade daquilo que é aprendido. O mais importante é que processo passa pelo desenvolvimento de competências socioemocionais, em que os alunos aprendem a colocar em prática as melhores atitudes e habilidades para controlar emoções, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas e tomar decisões de maneira responsável.

Esse diferencial faz da educação integral uma proposta educacional à altura das expectativas da sociedade, capaz de sustentar a formação de sujeitos críticos, autônomos e responsáveis com o meio em que vivem. “É uma educação com propósito, que olha para o aluno como ser único, que valoriza a qualidade dos processos e não a quantidade dos conteúdos”, reforça Ericka, com base em sua experiência como diretora de uma escola que nasceu com a mesma visão pedagógica.

Aspectos da educação integral já são desenvolvidos pontualmente em experiências de escolas brasileiras, com projetos que trabalham com a comunidade escolar e envolvem conceitos de participação, colaboração, liderança, protagonismo estudantil, gestão democrática, inovação, entre outros. Recentemente, porém, a educação integral foi priorizada pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que a partir de 2020 passou a ser referencial obrigatório para todos os currículos e práticas pedagógicas da educação básica.

A virada para uma educação com foco no aluno

Como consequência da BNCC, depois de anos sendo discutido no cenário educacional, finalmente o desenvolvimento integral está chegando em sala de aula, trazendo para gestores escolares e professores o desafio de colocar os estudantes no centro do processo de aprendizagem, considerando sua diversidade e a de seus contextos. Longe de ser um modismo, essa é uma realidade da qual ninguém poderá escapar.

“A novidade está trazendo uma mudança considerável e necessária na educação brasileira. Na prática, cabe à escola o ensino integral no sentido literal da palavra, educar por inteiro, deixar aflorar aptidões e valorizá-las. Ao dar vez e voz aos alunos, eles se tornam seres ativos da aprendizagem e buscam encontrar significados no conhecimento acadêmico para sua vida de maneira perene”, avalia Ericka.

Para que consiga alcançar esse propósito, o projeto pedagógico deve ser revisto em todas as suas dimensões – currículo, práticas educativas, recursos, agentes educativos, espaços e tempos -, prevendo a inclusão das competências socioemocionais da BNCC de forma intencional. Então, o que realmente muda?
Ericka explica que desenvolver competências não significa decorar conteúdos, mas ensinar a pensar, agir, resolver problemas, conviver com pessoas e consigo mesmo. Mais do que isso, ela aponta que os gestores escolares precisam compreender seu papel no processo educativo e trabalhar arduamente em prol do desenvolvimento integral dos seus alunos.

“A formação dos professores, o engajamento com a comunidade, o gerenciamento dos processos educativos do ensinar e do aprender, fazer evoluir os indicadores de melhoria do ensino, a compreensão do conceito de educação sistêmica, o olhar atento para diversidade e o fomento de um clima democrático na escola estão entre alguns dos seus desafios”, relaciona ela.

A opinião da educadora vai ao encontro do documento elaborado pelo Movimento pela Base Nacional Comum, que busca trazer consensos de especialistas sobre o que é essencial para a implementação da educação integral nas escolas. Ao tratar da relação dos gestores escolares com o seu território, o material afirma que eles precisam escutar continuamente a comunidade escolar, considerando seus sentimentos, conhecimentos e práticas como base para a mudança, acolhendo e valorizando o potencial que todos trazem consigo.

A transformação da sociedade no futuro é o maior desafio

Certamente, não há como resolver antecipadamente todos os problemas que cada escola vivenciará com a implantação da educação integral. Mas imaginar como ela transformará o futuro é uma forma interessante de estimular a superação de cada dificuldade.

Hoje, o maior desafio das sociedades contemporâneas é que as pessoas vivam juntas e convivam com as suas diferenças, sem que isso seja motivo de conflitos. Mais tempo na escola e uma formação que garanta não só os direitos básicos de aprendizagem, mas também que ensine crianças e jovens a conviver, desencadeando neles o gosto pelo conhecimento, nos trará um mundo mais humanizado. E a educação integral permite que todas essas coisas caminhem juntas.

“O protagonismo tão almejado somente se consolidará à medida que os colocarmos no papel de autores e não apenas atores do processo. Eles usam linguagens próprias, são ávidos e inquietos por natureza, desejam transformar o mundo com seus sonhos, nos cabe ensiná-los a voar e crer no potencial transformador da educação”, conclui Ericka.

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